ANA TAKENAKA

São Bernardo do Campo - SP ,1987 
Atualmente vive e trabalha em São Paulo.  
 
Formada bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2013).
 
Tem como inspiração os universos do desenho, gravura, papel, caligrafia japonesa e filosofia oriental. 
Na pesquisa do desenho estuda a representação das sensações e pensamentos através do traço, do gesto, explorando as potencialidades da linha e seus campos de representação abstrato e representativo. 
Este pensamento gráfico é expandido para a realização das séries em gravura, onde apesar das diferentes naturezas entre as linguagens (uma emergencial, a outra processual) busca tirar proveito das etapas construtivas da imagem para efetivar escolhas e manobras que as determinam monotipicamente, evidenciando a utilização da linguagem como meio de criação onde o foco não se faz na reprodução das tiragens, mas nas séries as quais contém em si uma ideia (tema) em desenvolvimento.
Atualmente tem pesquisado o processo de manufatura do papel, integrando-o cada vez mais ao desenho e gravura. 

Ana Takenaka

Deriva#3, 2017 

Ponta seca e chiné-collé sobre matrizes de polipropileno e acetato. Impressão sobre papel japonês. 

99 x 120 cm

 

 

"A experiência da deriva, de ser arrastado de um lugar para outro, de se deixar perder no tempo e espaço, pode ser uma experiência contraposta ao nosso condicionamento cotidiano, às obrigações e determinações que externamente nos são impostas. Talvez, neste emaranhado de estímulos banais, possamos encontrar um hiato oportuno para sermos levados por outras sensações. Os desenhos gravados de Ana Takenaka configuram-se neste interstício entre sensações e ações que responde a uma vaga intuição, como em um sonho, pois “...o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e suas distâncias...”¹. Desta forma, suas imagens são partes “...da imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.”², ou seja, de um todo improvável, mas insistentemente pressentidos. Nas gravuras de Ana Takenaka todos os elementos incisos, adicionados, marcados são articulados e rearticulados em estado provisório, capturados em um instante passageiro que se expande e, por isso mesmo, em suspensão. Uma delicada contradição que possibilita à artista a revisitação de seus rabiscos com repetidas impressões das aveludadas pontas secas, da captação de desenhos feitos com fitas adesivas encoladas sobre a matriz, da adição, no momento da impressão, de papéis colorizados com os restos de tintas deixados no ateliê. A existência destas matérias possibilita à Ana o mergulho cego no desenho-gravado: suas estampas são desenhadas pela combinação de gravações já existentes, que se renovam com a inserção de novos elementos gráficos e pictóricos no momento de sua estampagem. O desenhar que não se vê, descrito por Derrida³, é entendido aqui como a impossibilidade de se conhecer a imagem gravada antes de sua impressão, reforçado pelo processo empregado pela artista de realizar impressões únicas de suas composições gráficas. A cor presente em suas imagens, ora enfatiza algum elemento gravado, ora demarca parte de um espaço multifacetado. Algumas inscrições flutuantes indicam um caminho trilhado, ou um desejo a ser alcançado. Desta forma, os confins de suas imagens expandem-se para além das extremidades do papel. Certamente, é a necessidade de desenhar que conduz a artista a aventura do registro, da caligrafia imagética, do tracejar gravado que insiste em dar visibilidade ao espaço do papel, pois é o papel que, soberano, abarca a extensão do sensível e sustenta todos os sinais gráficos e pictóricos ali estampados."

 

Helena Freddi

Primavera de 2017

 

 

¹SARAMAGO, José. O Conto da ilha perdida. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. P. 50.

²CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p.106.

³DERRIDA, Jacques. Pensar em não ver. Editora da UFSC: Florianópolis, 2012. p. 163-190.